Por muito tempo o papel da mulher na sociedade foi o de cuidar do seu lar,
de seu marido, ter filhos e criá-los. Hoje a mulher conquistou outros papéis,
saiu da privacidade do lar para o mundo público, é maioria nas Faculdades
e pode ser a sua própria provedora. A conseqüência irônica desse progresso
é que as mulheres agora assumem uma dupla, e mesmo tripla, jornada de trabalho,
pois além de estudarem e trabalharem, o caminho natural e socialmente estimado
para uma mulher ainda é o casamento, ainda é a gravidez.
No entanto, quando essa família é constituída por duas mulheres, a gravidez toma a forma de "escolha", que muda a vida de qualquer pessoa e da qual não se pode voltar atrás.Além das questões que qualquer mulher deve refletir como: a jornada dupla de trabalho, ter dinheiro para cuidar de uma criança, ou como um filho irá afetar a carreira profissional, as mães homossexuais deparam-se com outras questões adicionadas pela sua orientação sexual.
Uma dessas questões é o apoio que se terá da família. Ter um filho é uma tarefa inicialmente muito difícil, tem-se um ser vulnerável e extremamente dependente que precisa ser protegido, alimentado regularmente, aquecido, limpo e acarinhado. A família de origem é a fonte de apoio primária de muitas mães, são as avós e irmãs que passam seus ensinamentos sobre cuidar de uma criança, e posteriormente são elas que ficam com as crianças para que as mães possam voltar ao trabalho. Muitas mulheres homossexuais quebraram seus elos com a família de origem, e não poderão contar com a ajuda dos parentes, entretanto, essa ajuda pode ser encontrada fora de sua família, entre amigos ou parentes da companheira, pode se fazer cursos de cuidado do bebê. Mas ainda assim é preciso pensar sobre esse ponto, a maternidade pode ser uma tarefa dificultada pela ausência de apoio familiar, mas facilmente contornável com esforço e vontade.
A perda de controle sobre quem sabe sobre a homossexualidade é outra questão importante. Apesar de existir uma revelação primordial quando se diz aos familiares que se é homossexual, o revelar-se é muitas vezes constante, tendo que optar diversas vezes para quem contar e pra quem é preferível não contar, no trabalho, no prédio, amigos e colegas. Uma criança vai ampliar essa necessidade, bebês chamam a atenção, as pessoas ao redor sempre perguntam quantos meses tem, e quem é o pai. São situações recorrentes para qualquer mãe, que também tem de refletir como irá ser essa situação na creche e na escola do filho. Além disso, quando a criança crescer, será dela a decisão de contar se tem ou não uma mãe homossexual, a decisão deixará de ser só da mãe.
Outra questão é a homofobia. Muitas das mães já sofreram com isso, e aprenderam muito bem a lidar com o preconceito. Entretanto, o preconceito terá uma nova forma quando se optar por ter um filho. O preconceito no Brasil é velado, a maioria pode afirmar que não tem nada contra gays e lésbicas, mas é também essa maioria que não gostaria de tê-los em suas famílias, que são contra demonstração de afeto em público e que consideram prejudicial à criança conviver com pais ou mães homossexuais. Além disso, ver seu filho sendo o alvo de preconceito é diferente de ser o alvo, afinal é apenas uma criança que talvez não saiba se defender. Aí entra uma outra questão: ser capaz de ajudar o filho a lidar com o preconceito, saber que será um trabalho constante de muitas conversas e acolhimento.
Muitas mães homossexuais preocupam-se com a ausência de uma figura paterna que possa ser modelo de masculinidade para o filho. Alguns apontam que seria benéfico que alguém assuma esse papel, um amigo, um irmão, um tio que esteja próximo da criança, que participe de sua rotina e até mesmo de sua educação, além de sempre maximizar as oportunidades de se ter homens na vida da criança. Outros apontam que não há uma necessidade de um "pai" como modelo de papel masculino, já que na vida cotidiana das crianças tem-se professores, treinadores, familiares, policiais e amigos, bem como membros da comunidade que podem servir como modelo e que satisfazem a necessidade de se ter um modelo masculino.
Por fim, pode se citar o fato que uma criança sempre mudar o relacionamento que se tem com a companheira, o que também acontece com famílias heterossexuais, mas com alguns pontos diferentes. Agora não são mais apenas companheiras, são também mães, que precisam aprender a dividir a atenção com um novo membro, que não terão mais todo o tempo extra para ficarem juntos, e nem toda a liberdade dentro de casa, que antes era o refúgio no mundo que privilegia a heterossexualidade. Precisam também assumir e dividir novas responsabilidades, encontrar um ponto de equilíbrio no que elas consideram uma boa educação, ajustarem se ao novo cotidiano, novas regras e necessidades econômicas. Além disso, apenas uma das mães será a mãe biológica dessa criança ou terá seu nome no registro dela, o que pode causar desequilíbrio de "poder" de decisão sobre ela, e fantasias sobre uma possível separação do casal.
Não se pode negar que ser homossexual traz algumas questões extras a maternidade, questões que não são necessariamente boas ou ruins. No entanto, é preciso que se reflita sobre as muitas mudanças que uma criança irá trazer - mudanças relacionadas com a orientação sexual ou não - que se pensadas anteriormente facilitarão o desenvolvimento de uma família funcional e harmônica.