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The New York Times (19/4/2006)
Michael Winerip

Jesse era um menino que morava em uma casa para adoção. Quando ele fez 10 anos, um programa de Tv em Boston dedicou um espaço a ele na esperança de conseguir que fosse adotado. Um jornal publicou um artigo enfatizando sua amizade e amor pelo baseball. Mesmo assim, nenhuma família respondeu.

Na época, ele já havia freqüentado seis escolas, estava em uma classe de educação especial, e mal sabia ler e escrever.

Ele viveu em um abrigo para sem-tetos com sua mãe, viciada em drogas, e em 8 lares de adoção. Aos 4, ele foi adotado por uma mãe solteira, mas quando tinha 8 anos, a mulher o devolveu ao Estado. Ela alegou que ele era difícil de se lidar. Jesse relata: "Ela me largou porque ia se casar e se mudar para uma casa grande, e o cara não me queria por perto".

Finalmente, um casal que ouviu sobre Jesse na igreja mostrou interesse: Laura Patey e Leigh Powers. As duas começaram a ir aos seus jogos de baseball, ele visitava a casa delas, uns poucos quarteirões de seu lar para adoção. Jesse jogava basquete com Patey, e Playstation com Powers. Depois da escola, esperava nas escadas que elas voltassem do trabalho. Em pouco tempo, ele deixava coisas importantes na casa delas, como seus cartões de baseball.

Quando foi hora para "a conversa", Jesse estava pronto. "Ele disse a seu amigo Sam que havia essas duas ótimas mulheres que ele encontrou e gostou muito", relembra Powers. "E Sam disse: Você quer dizer Leigh e a Laura, as duas lésbicas do fim da rua?" E desde que Sam estivesse bem com isso, Jesse também estava.

As mães de Jesse não são ricas - elas alugam uma parte de uma casa, e vivem juntas com três gatos e uma casa de passarinho.

Para ajudar Jesse com a escola, Powers, instalou um programa de computador que lê a escrita dele em voz alta, gravaram livros em fitas para ouvir enquanto ele lia. "Disseram a ele que era burro", disse Powers. "Queríamos mostrar para ele que conseguia ler".

Patey, que trabalhava na Universidade de Lesley, concluiu que Jesse não tinha problemas de aprendizado, mas sim "grandes lacunas em sua educação por causa de todas as interrupções". Assim, ele retornou para as classes regulares.

Quando chegou o colegial, as mães sabiam o que queriam. "Uma escola católica", disse Patey. Ela freqüentou escolas paroquiais e, já adulta, relutantemente deixou o catolicismo romano, para adentrar em uma igreja episcopal onde ela podia amar abertamente sua parceira. Patey optou pelo catolicismo, pois "ele ajuda a desenvolver um compasso moral, um sentido de certo e errado e como tratar as pessoas com respeito."

Quando eles preencheram os formulários, a mulher fez o sinal da cruz e escreveu seus nomes. Jesse teve de fazer duas redações; uma sobre suas mães. "Não escondemos nada", relatou Patey.

Os depoimentos aprovados pelo Papa João Paulo II em 2003 apontam a adoção gay como "gravemente imoral". "Permitir que crianças sejam adotadas por pessoas em tais uniões, na verdade, significaria um ato de violência contra estas crianças", disse o Vaticano.

As mães de Jesse ficaram bravas pela posição oficial da igreja, mas Jesse foi aceito nos dois colégios católicos - o Catholic Memorial, em Boston, e o Saint Clement, em Medford, onde em breve se formará. A família não foi tratada como pessoas "gravemente imorais", foi aceita e se sentiu bem-vinda."

No final do primeiro semestre, Patey se encontrou com um oficial de admissões, o irmão Stephen Casey. "Ele me disse, Jesse é um ótimo garoto", relembra Patey. "Ele falou: 'Estamos realmente impressionados. Vocês duas estão fazendo um trabalho maravilhoso com este garoto'". Quando o casal adotou um segundo garoto, Alex, o Catholic Memorial deu boas vindas a ele também.

Jesse ainda luta. Passa com notas regulares, e em um semestre ele foi afastado do baseball por causa de suas médias.

Quando mais novo, disse ele, era provocado: "Os moleques diziam, 'Cala a boca, você tem duas mães'. Grande piada", falou. Mas havia adultos para recorrer, disse ele, como seu professor de teologia, Daniel Dion. "Eu podia falar sobre garotos pegando no meu pé e problemas em casa com minhas mães", disse Jesse. "Nós conversávamos, e isso não me remoeu por dentro".

Jesse foi aceito em duas faculdades locais e espera jogar baseball. Atualmente ele está em um programa que trabalha com crianças carentes. Ele poderia aceitar um programa em qualquer lugar, mas escolheu Boston para que pudesse viver em casa.

Não é um lar perfeito. Ele gostaria que suas mães fossem menos rígidas, que elas não tirassem seu telefone celular quando suas notas caíssem e nem rastreassem as web pages que ele visita. "Eu tenho 18 anos", disse Jesse.

Mas é uma casa repleta de amor. As duas mães fazem malabarismo com seus empregos, para que sempre estejam presentes nos eventos escolares e jogos. Jesse diz: "Quem mais eu tenho para olhar nas arquibancadas? Quando eu acerto uma baita rebatida, não posso ter a mãe de outra pessoa assistindo".

(texto completo em:Ig noticias)

 

Um garoto, suas duas mães e a questão da
adoção por casais gays