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BREVE HISTÓRIA DA HOMOSSEXUALIDADE


Foucault (1988) diz ser de grande importância o estudo da cultura judaica, da filosofia alexandrina e dos estóicos, pois neles estão a gênese do objeto sexualidade, que seria: "... um instrumento formado há muito tempo e que se constitui como um dispositivo de sujeição milenar" (p.268). Assim, compreendendo estas civilizações, compreendemos melhor a forma como vemos a sexualidade hoje.

A sexualidade na Grécia Antiga era, segundo Spencer (1995), complexa e contraditória, a norma social era a bissexualidade, mas era esperado que os homens casassem e formassem uma pequena família. Não era bem visto ter como amantes apenas homens e também não era bem visto a homossexualidade entre adultos, sua prática ocorria entre o mestre (acima dos 25 anos) e o aprendiz (12-15 anos).

Spencer (1995) aponta que por algum tempo os gregos dominaram outra civilização que muito influenciou o Ocidente: a hebraica. Assim, nesta também havia a homossexualidade, mas com o fim da dominação, tudo que tinha origem grega passou a ser repudiado. O mesmo ocorreu com a prática homossexual que passou a ser abominada, pois agredia a ordem natural das coisas.

Já em Roma, Spencer (1995) relata que havia a bissexualidade até 342 d.C.. A virilidade era uma característica muito apreciada, o que evitava a prática homossexual entre os romanos, sendo que os escravos eram, mais comumente, os amantes, já que dar prazer era viril, mas receber era servil. A partir de 533 d.C. o homossexualismo começou a ser punido com a morte, como conseqüência de vários fatores, sendo um deles a mistura de religiões com o cristianismo. Outro fator de extrema importância foi uma grande necessidade de comandar a si mesmo para comandar o outro, formando uma sociedade baseada em regras. Entram então em cena os estóicos que ensinavam a reprimir, domar e canalizar, através da reflexão, a sexualidade apenas para o casamento, dando ao homem uma dignidade filosófica.

Esses fatores levaram a prática homossexual à clandestinidade, além de colaborar para uma nova visão sobre o sexo que deixou de ser apenas uma forma de obter prazer e de se reproduzir e passou a estar vinculado com a verdade, é no sexo que está a verdade de cada um (Foucault, 1988). A partir de então, a homossexualidade foi adquirindo características cada vez mais pejorativas, na Idade Média a homossexualidade passou a ser uma monstruosidade, uma perversão, sendo a homossexualidade como oposto da heterossexualidade, o anormal como oposto do natural. (Ariès, 1983).

O Brasil foi descoberto dentro desta visão do homossexualidade. As Ordenações Filipinas vigoraram aqui por mais de dois séculos, e neste a punição pela prática do homossexualismo era a morte pelo fogo, confisco dos bens e seus descendentes tornar-se-iam inábeis e infames (Trevisan, 1986).

Nos séculos XVIII e XIX, com a revolução industrial surge a necessidade de ter uma grande nação, através do crescimento da força de trabalho e produção, e como aponta Badinter (1985), isso fez com que recaísse sobre a população um novo pensamento que valorizava a família e os filhos. No Brasil, segundo Costa (1983), com a chegada da ideologia higienista os homossexuais passaram a ser vistos como assassinos do corpo e do bem-estar biológico-social, pois não eram pais.

Após a homossexualidade ser julgada como um pecado, e mais tarde um crime, têm-se a homossexualidade com inadequação médica e disfunção psicológica, em uma visão que foi incorporada por todo o Ocidente na segunda metade do século XIX (Spencer, 1995). O doente torna-se inimputável e necessitado de tratamento. O controle da homossexualidade passou a ser feito através da cientificidade.

A partir da década de 70, iniciou-se outra mudança de pensamento no Brasil e na Europa: a luta pelo fim da discriminação e opressão e a retirada dahomossexualidade da lista de desequilíbrios psicológicos (Spencer, 1995, Macrae 1985). A homossexualidade deixou de ser visto como resultado de fatores etiológicos, mães fortes e pais fracos, fracasso edipiano e condicionamento defeituoso (Plummer in Hart & Richardson, 1983).

Com o surgimento da Aids no início dos anos 80, ocorre a ligação da Aids com a homossexualidade (Trevisan, 1988, Tosta, 1992), já que grande parte dos soropositivos era homossexual. Essa ligação resultou em um grande motivo para fomentar o preconceito. Por outro lado, a Aids ampliou a discussão em torno da sexualidade e da homossexualidade, e à medida que a doença foi difundindo-se por todos os segmentos da sociedade, a relação Aids-homossexualidade foi perdendo sua força.

Nos dias de hoje, a homossexualidade não é mais vista como doença ou pecado por alguns segmentos da sociedade brasileira, na qual o conceito de "politicamente correto" embasa as relações sociais. Contudo, outros segmentos continuam a ver a homossexualidade da mesma forma como era vista na Idade Média ou no século XIX.