Uma Bandit no Corvo Branco - 05/01/2004
A muito tempo eu queria conhecer o Morro da Igreja, do lado norte do Parque Nacional de São Joaquim, e eu não queria passar frio lá (dizem que no inverno já fez 17° negativos, com sensação térmica de 40°, por causa do vento forte). Também queria conhecer a Serra do Corvo Branco, uns 20 km adiante, por estrada de terra, se esta estivesse em bom estado. Obtive muitas informações desencontradas sobre distâncias, sobre o clima (não era recomendado ir no verão, por causa da neblina).... o jeito foi ir conferir pessoalmente.
No sábado a noite sequestrei a Mônica, e saímos cedo do Principado de Wide Field (pra fugir dos paparazzi), em direção a Floripa, com destino a Angelina, pequenina cidade no pé da serra pra Lages (BR 282). Fizemos a viagem pela 376/101 com muita tranquilidade, mas parando o mínimo necessário pra podermos chegar em Angelina ainda no almoço.
Entre o trevo de Brusque e Porto Belo, observamos milhares de carros parados na pista contrária, por puro e simples excesso de carros na pista, e ocorreram alguns engavetamentos sem gravidade, mas não pude deixar de pensar na mediocridade humana, ao se sujeitar a descer ao litoral (por mais belo que seja) nesses feriados, ficar sem água, em filas pra tudo, sob um sol escaldante, pagando preços absurdos, e pra voltar, ficar horas na estrada ..... não dá mais pra ir pra praia!! O jeito é subir a montanha!!!
Próximo a Floripa, paramos no Museu Açoriano pra esticar as pernas:

(essa aí em cima deveria aparecer a ilha, as pontes.... o tempo enevoado estragou a foto......)

Em Angelina há um convento das Irmãs Franciscanas que oferece hospedagem para os humildes viajantes, arrependidos e contritos em seus pecados, cometidos no mundo real ou virtual em 2003. O esquema é rígido: pensão completa, com café da manhã das 7:00 às 8:00, almoço das 12:00 às 13:00, jantar das 18:30 às 19:00, luzes apagadas e portas trancadas às 20:00. Um retiro!!
Aqui, uma foto ainda na estrada, BR 282, já se afastando do litoral:

Depois de chegarmos, descarregarmos as bagagens, e almoçarmos no convento (muita gente da região vem apenas almoçar, R$ 6,00 buffet livre, típica comida caseira, uma delícia!!), passeamos pelos edifícios da Congregação:

O acesso a cidade se dá por uma estradinha de 13 km, a partir da BR 282, cheia de curvas, asfalto lisinho, paisagem maravilhosa!!! Dá vontade de deixar a moto de lado e caminhar lentamente pra curtir cada ângulo do visual.... dá vontade, mas preferi deixar a Mônica no acostamento e fazer as curvas:




Aqui, um visual da cachoeira ao lado da estrada:

A ponte de madeira numa estrada secundária, ao lado do asfalto:

No dia seguinte, segunda-feira, acordamos cedo, dentro do esquema rígido do Convento, e nos preparamos pra continuar subindo a serra. Aqui, em frente ao prédio principal do convento:

A umidade do mar carregada pelo vento leste deixava todas as montanhas encobertas pela névoa, uma garoa fina, irritante.... mal saímos da cidade, colocamos as capas de chuva. Aqui uma vista do vale num raro momento de tempo um pouco mais aberto:

Nesse ponto, um viaduto na BR, estavam parados dois casais de BMW e um cara de TDM850, todos de São Paulo, rumando até Lages.... batemos um papo, fui seguindo-os por um tempo. A BR tem muitas curvas, e sob chuva fina, a condução ficava perigosa. Os carros queriam nos passar a todo custo, achavam que estávamos andando devagar demais, motoristas doidos!!. A turma de São Paulo encostou numa banca na beira da estrada, buzinamos e seguimos adiante.
Em outro trecho sem chuva, já na estrada pra Urubici (em seguida pegamos chuva mais forte):

Chegamos no hotel (Urubici Park) quase meio dia, descarregamos, fomos num restaurante almoçar..... nisso, o tempo foi melhorando. Escaldados com o tempo instável, ainda com capas de chuva, fomos em direção ao Morro da Igreja, com seus mais de 1800 m de altitude e seus radares do Cindacta 2. O acesso é feito por um trecho de 10 km de estrada de terra muito boa, com poucos buracos. Daí, chega-se ao trevo asfaltado no pé do morro:

Toda a subida é pavimentada, alternando trechos de asfalto e concreto, num total de 15 km. Na verdade, passamos por vários morros, subindo bastante, descendo algumas vezes. Preferimos subir sem parar, pra curtir o visual, e depois na descida ir parando pras fotos. O fato de irmos passando de morro em morro, até chegar ao objetivo, nos provoca uma ansiedade incrível!! A gente vai vendo o Morro da Igreja lá na frente, de repente a estrada muda de direção e vamos pra outro morro.... daí olhamos pro lado e vemos ele de novo!! Logo após, um abismo, depois, uma vista do vale lá embaixo.... parece um trailer do que está por vir, é empolgante!!!
Quando chegamos no topo, descobrimos que não estamos no topo, na verdade temos que parar no portão de entrada do Cindacta, um pouco antes do ponto mais alto ... uma pena que não há um remanso, nem bancos, nenhum tipo de apoio ao turista que lá chega, nem se tem espaço pra manobrar os carros pra retornar.... mas o visual de quase 360°, das montanhas, das escarpas, da Pedra Furada, compensam a falta de estrutura. Eu poderia tirar dezenas de fotos que vocês não teriam idéia do que é estar lá em cima!!! Todo o espaço da nossa visão é ocupado pelo céu e pelo verde dos campos, e da vegetação maior lá embaixo. Quando revelamos as fotos, sempre fica a frustração de não conseguirmos captar todo o ambiente, toda a paisagem, nos pequenos retângulos 10 por 15 cm ...
Mas tentaremos dar uma idéia nestas fotos (acho que não precisam de legendas):





Depois de quase uma hora lá em cima (tinha gente do São Paulo, do Rio, uma turma de Land Rovers do Rio Grande), começamos a descer.... aqui paramos num remanso no trecho mais íngrime:


E eis que quase no final da descida damos de cara com representantes da raça bovina (as populares vacas), solenemente nos ignorando, bem no meio da estrada. Tive que partir pra ignorância e tascar as novas buzinas duplas Paquerinha da Bandit... ou talvez por serem Paquerinha, as vacas queriam correr atrás da gente, hehehehehe

Retornamos ao trevo...... olhamos o marcador de gasolina... olhamos o odômetro.... olhamos o estado da estrada.... olhamos as placas.... Serra do Corvo Branco, 20 km ... decidimos ir em frente, descobrir porque o Corvo é Branco!!
A estradinha continuou linda, por um vale cheio de propriedades rurais, mas o leito foi piorando, com trechos de pedras, buracos..... mas fomos seguindo devagar:


Ao contrário da estrada do Morro da Igreja, esta estrada (SC 438, se não me falha a memória) não dá pistas do que está por vir.... vamos seguindo, apreciando a paisagem, mas não tínhamos a idéia de como seria essa serra:

Mas, de repente.... viramos uma curva ao pé dum paredão de pedra, e ficamos brancos como o Corvo!!! A estrada vira asfalto num corte abrupto do paredão de pedra, uns 90 m de altura, e no final, o visual lindíssimo de todo o vale e as curvas extremamente fechadas, feitas de concreto e asfalto diretamente sobre as pedras!!

MAS QUEM FOI O IMBECIL QUE COLOCOU ESSE POSTE DE TELEFONE BEM NO MEIO DA FOTO???!!!!!!!! Só pode ter sido um engenheiro.....

Novamente, as fotos não traduzem 10% do que é estar lá, ouvindo o silencio, observando a paisagem, escutando os passarinhos (são milhares com os ninhos nas pedras) revoando continuamente....






Aí o filme acabou.....
Novamente ficamos um bom tempo curtindo o local, mas estava ficando tarde..... retornamos com cuidado todos os 30 km de terra, percorridos em mais de uma hora. Deixei a Mônica no hotel, levei a moto num posto, pra encher o tanque e dar um banho, cuidar da corrente cheia de pó (o pessoal foi legal, pois já passava das 6 e meia, estavam indo embora).
Nossa idéia era no dia seguinte seguir pra Serra do Rio do Rastro, passando pela Cascata do Avencal, pertinho do centro de Urubici, mas por motivos profissionais tive que acabar retornando (maldita idéia levar o celular....). E também, como já tínhamos andado bastante, e ir até o Rastro daria mais uns 300 km ida e volta de Urubici, acabamos decidindo retornar pra Campo Largo na terça, pela BR 116.
Saímos cedo, nem lembramos de comprar mais filme... acho que nem precisava, pois não havia motivação pra parar e tirar fotos da 116.... não que seja feia, mas a lembrança das paisagens do Morro da Igreja e da Serra do Corvo Branco ainda na mente não entusiasmavam a parar.
Mas se a Bandit não desmontou nesse trecho da BR 116, não desmonta mais!!!! Principalmente entre Santa Cecília e Mafra, o asfalto é horrível!!! Buracos, remendos, trânsito pesado.... teve um buraco em que a Bandit mergulhou, que só por milagre não caímos e a roda traseira não entortou, tal o impacto.... a frente eu consegui aliviar (ainda bem que a frente da B12 é bem leve, hehehehe), mas a traseira pegou em cheio, deu um estalo assustador na mola.... o saldo foi uma lente quebrada do pisca traseiro, que é de CG 2000.
Agora a B12 tá caolha de piscas, e não há lentes de CG pra vender em Campo Largo!!! Já coloquei de CG pra ter a garantia de fácil reposição em caso de quebra... agora só existe a lente colada numa base, que não se encaixa no pisca que eu tenho na B12.... vou ter que ir a Curitiba comprar uma lente que não custa mais que 1 real.....
Enfim, foram 1130 km em 3 dias, consumo médio de 16 km/l. Andei toda a viagem com a caixa do filtro de ar sem o Snorkel, um cano de borracha, que apenas reduz o ruído de aspiração do ar. O comportamento em alta melhorou um tiquinho, mas optei por colocar o tal tubo novamente porque senti alguns desajustes na carburação, o motor ficou sensível a altitude, o que não acontecia antes. Seria necessário ao menos equalizar o vácuo dos carburadores, pois a marcha lenta ficou bastante irregular.
Só a título de informação, a hospedagem no Convento fica em R$ 80,00 o casal, com pensão completa, e em Urubici fica em R$ 60,00 o casal com café da manhã apenas. Quem quiser fazer uma viagem muito bonita e ficar uns dias em silêncio, repensando a vida e descansando, recomendo muito esse convento. As freiras são muito atenciosas, discretas (você só fala com a Irmã Ivonete e a Irmã Geni, as demais você nem vê), a comida é simples mas deliciosa, o clima agradável. Se alguém quiser eu dou um jeito de achar o telefone do convento (tava aqui em algum lugar.... acho que perdi).