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A Tarde - Cineastas pedem cabeça de diretor
da Fundação Cultural

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17/06/2005

Cidade
Cineastas pedem cabeça de diretor da Fundação Cultural

Vítor Rocha, do A Tarde On Line

“Eu desafio Armindo Bião [diretor da Fundação Cultural do Estado] para um duelo, que pode ser de cuspe, por exemplo. Ele escolhe as armas, o local e as regras e todos nós estaremos lá”, gritou Edgard Navarro, cineasta baiano, durante manifestação de cerca de 50 produtores do audiovisual, na tarde desta sexta-feira, em frente ao prédio da instituição.

Foi nesse clima de descontração que o recém-criado Núcleo Contra a Censura na Bahia, com apoio da Associação Baiana de Cinema e Vídeo (ABCV), fez exigências nada cordiais. Eles querem a demissão do diretor da Fundação, a reabertura das salas Walter da Silveira e Alexandre Robatto (administradas pela Fundação) e a reformulação dos incentivos do Estado aos produtores.

Com câmeras filmadoras digitais em punho e diversas faixas, os manifestantes davam gritos de ordem como “Censura não, fora Bião” e pediam a demissão do diretor. As vozes ecoaram das 15 horas até o final da tarde. Os manifestantes deitaram na pista, fizeram “panelaço” e “apitaço”, impediram a passagem de carros e obrigaram a Superintendência de Engenharia de Tráfego (SET) a desviar o trânsito na Ladeira da Praça, na esquina da seda da Câmara de Vereadores.

Diversos curiosos observavam de perto, assim como a Polícia Militar. Cinco PMs ficaram diante da porta do prédio da Fundação e impediam as investidas dos manifestantes para entrar no local. Uma pequena confusão com os seguranças da Fundação não tirou o tom pacífico do protesto.

O Núcleo Contra a Censura reivindica que Bião e Jamison Pedra - da Diretoria de Artes Visuais e Multimeios (Dimas), unidade da Fundação -, deixem seus cargos por promoverem atos de censura contra o cinema baiano.

Os manifestantes foram motivados pela retirada, promovida pela Dimas, unidade da Fundação, do vídeo “O Fim do Homem Cordial”, de Daniel Lisboa, da Mostra Jovens Realizadores Baianos, realizada no início deste mês por um grupo de jovens em parceria com a Dimas. O curta de dois minutos e meio faz referências explícitas ao senador baiano Antônio Carlos Magalhães.

“Essas pessoas usam a caneta para censurar a arte, que jamais pode ser censurada”, falou José Araripe Júnior, presidente da ABCV, no microfone ligado a uma caixa de som no meio da rua Chile. “Queremos uma reunião com o governador do estado (Paulo Souto) para discutir uma revisão da administração do incentivo ao audiovisual. A ABCV entende que Bião corroborou com a censura e já confirmou a atitude em depoimentos na imprensa”, disse Araripe.

MOVIMENTO ANTI-CORDIAL – Depois que as mesmas pessoas da manifestação desta sexta ocuparam a sede da Dimas na última segunda-feira, a Fundação decidiu fechar temporariamente as Salas e cancelou toda a programação. A decisão foi tomada sob a alegação de "preservar a integridade física dos funcionários". A instituição alega que "O Fim do Home Cordial" incita à violência e que, na qualidade de órgão público, tem como dever proteger os espectadores, em sua maioria adolescentes, que freqüentam seus espaços.

Daniel Lisboa, autor do vídeo, acredita que o seu nome e o do filme caíram em uma categoria secundária, pois a grande discussão está em torno da censura. Fortemente influenciado pelo contestador cineasta Glauber Rocha, Lisboa faz parte do Movimento Anti-Cordial, formado por jovens cineastas e estudantes da sétima arte.

"Todos nós sabíamos há um bom tempo que era necessário uma reforma nas formas de incentivo à cultura na Bahia, sempre direcionadas para um grupo. A discussão não surgia por falta de um estopim, papel do vídeo agora", dispara Liboa. “Estamos demonstrando nossa indignação contra a arte comprada, medrosa e que não incomoda. Achamos que a arte na Bahia passa por essa calmaria, interessante para o Estado, por não ser contestadora. ´O Fim do Homem Cordial` serviu para por em crise esse marasmo”, avalia. O movimento reivindica ainda mais incentivo por parte do poder público ao audiovisual. “Queremos mais verbas nos editais”.