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Quarta, 15 de junho de 2005
A Tarde - Medo de protestos fecha salas de cinemas

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Vítor Rocha
Do A Tarde On Line

A ocupação feita por cerca de 50 profissionais do audiovisual baiano à sede da Diretoria de Artes Visuais e Multimeios (Dimas), na última segunda-feira (13), levou a Fundação Cultural do Estado a fechar temporariamente, nesta quarta, as salas de exibição Alexandre Robatto e Walter da Silveira, além da galeria Pierre Verger, todas administradas pela entidade. Os cineastas e produtores de vídeo protestavam contra a "censura" impetrada ao curta "O Fim do Homem Cordial", de Daniel Lisboa, que faz referência explícita ao senador Antônio Carlos Magalhães.

De acordo com a assessoria da Fundação, a decisão foi tomada para assegurar a integridade física dos funcionários e do patrimônio. Não há previsão para o retorno das atividades e a programação agendada foi cancelada. Foram canceladas nesta quarta três sessões do filme "O Auto da Compadecida" previstos para a sala Alexandre Robatto. Na sala Walter da Siveira, deixaram de ser exibidos "A Teia de Chocolate" e "Negócios à parte".

Questionado sobre o quê estava provocando insegurança à Dimas e seus funcionários, a assessoria relatou que os ânimos ainda estão exaltados.

Cineastas e videomakers baianos fizeram "panelaço" e passaram todo o dia de segunda acampados na sede da Dimas em protesto contra a retirada de última hora do vídeo “O Fim do Homem Cordial” da programação da Mostra Jovens Realizadores. Os manifestantes classificaram a atitude como censura ao cinema baiano.

Promovida pela Arteponto Produção Cultural e Design em parceria com a Dimas, que cedeu a sala Alexandre Robatto, a Mostra foi realizada no início do mês, sem o filme. Apenas dois dias antes do início do evento, a Dimas informou aos organizadores da Arteponto que o "O Fim do Homem Cordial" não poderia ser exibido, sob pena de não ocorrer a mostra.

A Associação Baiana de Cinema e Vídeo (ABCV) encaminhou uma carta nesta terça-feira ao governador Paulo Souto para pedir a demissão do diretor da Dimas, Jamison Pedra. Exigem ainda que os filmes classificados na última edição Festival Nacional de Vídeo – Imagem de Vídeo 5 Minutos, organizado pela Fundação, sejam exibidos nas sessões dos longas-metragens na sala Walter da Silveira e na TVE, a exemplo de procedimento adotado nas edições anteriores.

A ABCV alega que a mudança no procedimento seria mais uma retaliação ao “O Fim do Homem Cordial”, que foi o ganhador do principal prêmio do último Festival. A diretoria do Irdeb, responsável pela TVE, argumenta que não existe nenhuma parceria com a Fundação nem obrigatoriedade para exibir os vídeos do Festival.

A Associação de Roteiristas de TV e Outros Veículos Audiovisuais (ARTV) também se mostrou contraria a atitude da Dimas. Em documento enviado a imprensa, ”protesta veementemente contra a censura”. Cita ainda que “a ditadura acabou, supostamente, há 20 anos, e é preciso enterrar definitivamente esses remanescentes de comportamentos típicos da época”.

MANTIDO - A Fundação Cultural é vinculada ao Governo do Estado, mas tem autonomia administrativa sobre suas unidades. Sob comando de Armindo Bião, a Fundação garantiu a permanência do atual diretor da Dimas, mas admite que está avaliando as exigências do movimento. “Estou avaliando, porque no calor da agitação, o melhor a fazer é ter paciência”, afirmou.

Ele explicou que no caso de projetos em parceria, como a Mostra Jovens Realizadores, as partes devem decidir qual a programação. Como a sala é administrada pela Dimas, sua diretoria entendeu que “O Fim do Homem Cordial” não deveria ser exibido, mesmo depois de entrar lista de inscritos. “Premiamos e exibimos o filme em evento patrocinado pela Fundação. Depois de algumas projeções, verificou-se seu conteúdo agressivo. O motivo foi o zelo pelo público que freqüenta nossos espaços, considerada a incitação à violência”, explicou Bião.

Sobre o fato de a atitude da Dimas, de retirar do evento um filme que critica o senador Antônio Carlos, gerar dúvidas sobre a imparcialidade na distribuição dos editais de financiamento da arte por parte do governo, Bião disse não ter cabimento. “Os editais visam democratizar a produção artística e atribuímos o poder de decidir seus vencedores às comissões designadas, que são soberanas”, assegura.

“O Fim do Homem Cordial” é uma realização da produtora Cavalo de Cão e coloca no centro da narrativa o político baiano, apesar de seu nome não estar presente. Com dois minutos e meio de duração, ele se apropria de imagens do telejornal Bahia Meio-Dia, da TV Bahia, e mostra um Casemiro Neto [âncora do telejornal] perplexo.

Inspirado em imagens de grupos de seqüestrados extremistas árabes, à exemplo da rede Al-Qaeda, a fita mostra um grupo de quatro terroristas agredindo o político chamado de “Cabeça Branca” e “Painho”. Frases como “A Bahia está órfã” e “Acabou essa onda de coronelismo na Bahia”, assim como palavras de baixo calão, também são citadas no curta.

"O Fim do Homem Cordial" pode ser visto no endereço http://www.soononmoon.org/cineaum/FHC.mpg