De: José Sylvio [jsb@robynet.com.br]
Enviado em: Wednesday, June 13, 2007 1:48 PM
Para: Gjunior
Assunto: Medicina do Medo

Medicina do Medo - Fila, burocrata e revolta fazem o nosso dia-a-dia

 

Vez em quando me pergunto sobre o porquê de escrever este trabalho e por que divulgá-lo.
Qual é a razão, qual motivação em estar envolvido com esta situação da Medicina e dos médicos de hoje? Afinal, não são mutáveis todos os fatos? As pedras demoram muito tempo para se transformar, as pessoas um pouco mais de tempo, mas as idéias e o pensamento podem ser transformados com rapidez, porquanto maleáveis e dinâmicos.

Esta qualidade de mudança rápida é produto da maior das características do ser humano – a inteligência para adaptar-se e acompanhar as mudanças de necessidades e desafios existenciais. É também a capacidade de se envolver nestas transformações e atuar sobre elas, dirigindo- as para atender interesses da sociedade. Assim, diante de determinadas mudanças, você se define em relação a elas – estou indiferente ou estou contra ou a favor.

Vivenciamos a Medicina do Medo – medo da imprensa, medo da polícia, medo de errar, medo de nossas associações de classe que disponibilizaram telefones 0800 para denúncias (ato no mínimo de mau-senso), medo de ações judiciais etc. Medo de assaltos, medo de ir trabalhar em determinados locais etc. Não é possível estar indiferente nem a favor desta realidade atual.
A deterioração do estamento profissional do médico e a mudança na ótica de exercício de ações de saúde, nem para os médicos – os legítimos executores do Ato Médico e a ponta-de-lança destas ações.
Sob diretiva constitucional, obriga-se o Estado, como nação politicamente organizada, a responder ao direito de todos, o direito à saúde.

Todavia não trouxe mudanças que satisfizessem plenamente aquele direito que contemplasse as necessidades do combate ao agravo à saúde. A aplicação daquela disposição constitucional fez-se de uma maneira distorcida e não me consta que a sociedade se sinta adequadamente acobertada por aquele direito que escrevemos na Carta Maior.

Uma inversão de valores conduziu as ações de saúde para mutirões, programações inadequadas de ações de saúde, desvalorização de profissionais médicos e valorização de outros, inverteu papéis, burocratizou de tal forma o mecanismo de assistência ao cidadão, que o tornou mero número em estatísticas. Não há mais relação humana no atendimento ao cidadão, substituída que foi por estatísticas e mais estatísticas, um sem-número de burocratas decidindo sobre transferências de pacientes, um sem-número de gestores não preparados, filas e mais filas de pessoas insatisfeitas e revoltadas, um imenso preenchimento de papéis para retirar remédios de farmácias estatais, burocracia para internamentos, entre outros. Uma desgastante atividade entre municípios, com trocas de verbas, troca de vagas, transporte desnecessário de pacientes, uma máquina gigantesca em cuja ponta está o pobre paciente, cujo tratamento não é mais decisão de médico, profissional que se formou para isto. Criou-se uma verdadeira viação da saúde, num sistema imenso de transporte para assistência em outros locais que não o da origem do morador. Filas e mais filas angustiantes para atendimento especializado em outra cidade, em outro Estado. O paciente virou um número e perdeu a identidade. Um verdadeiro novelo de consulta-marcação de consultas com especialistas, retornos, feitura de exames, novo retorno, entremeados de papéis e mais papéis e um atendimento que não anda, não resolve, não satisfaz a esperança do paciente, não objetiva o paciente, mas objetiva a doença.

Evidentemente que algumas mudanças trouxeram benefícios, não havendo dúvida disto. Alguns recursos médicos, como hemodiálises, oncologia, tomografias, ações complexas na área da cardiologia etc, estão ao alcance de todos os cidadãos. Mas a grande mudança, para tratar o doente e não a doença, não aconteceu ou pouco se alterou.
A satisfação do Direito Constitucional não é adequada enquanto não tratar o paciente e enquanto o cidadão for um número, uma estatística. Hoje, na realidade, o contato do paciente com o médico é o início de uma relação desgastante para ambos – inicia-se um processo de atendimento, cria-se um problema e não uma solução.

Depois de quase 40 anos na profissão, tendo trabalhado longo tempo no sistema estatal de saúde e vendo cada vez mais a deterioração do estamento do médico e o elefante branco em que se transformou a assistência à saúde, onde o médico tem mínima participação como gestor, como executor, como agente qualificado, vê-se crescer a desesperança, o desalento e até o abandono da profissão por outra menos desgastante. A saída está em sair da profissão ou lutar para mudar. Não dei conta de sair até hoje, embora o quisesse muito.

 

Cons. Dr. Lauro Vaz da Costa

 

Fonte:

 

http://jornal.crmmg.org.br/v2/index.php?edicao=2007/02&titulo=Medicina%20do%20Medo&pagina=ar04.php

 

Fevereiro de 2007 – n167 03