Medicina do Medo - Fila, burocrata e revolta fazem o nosso dia-a-dia
|
|
Vez
em quando me pergunto sobre o porquê de escrever este trabalho e por que
divulgá-lo. Esta
qualidade de mudança rápida é produto da maior das características do ser
humano – a inteligência para adaptar-se e
acompanhar as mudanças de necessidades e desafios existenciais. É também a
capacidade de se envolver nestas transformações e atuar sobre elas,
dirigindo- as para atender interesses da sociedade. Assim, diante de
determinadas mudanças, você se define em relação a elas – estou
indiferente ou estou contra ou a favor. Vivenciamos
a Medicina do Medo – medo da imprensa, medo da polícia, medo de errar,
medo de nossas associações de classe que disponibilizaram telefones 0800
para denúncias (ato no mínimo de mau-senso), medo de ações judiciais etc.
Medo de assaltos, medo de ir trabalhar em determinados locais etc. Não é
possível estar indiferente nem a favor desta realidade atual. Todavia
não trouxe mudanças que satisfizessem plenamente aquele direito que
contemplasse as necessidades do combate ao agravo à saúde. A aplicação
daquela disposição constitucional fez-se de uma maneira distorcida e não
me consta que a sociedade se sinta adequadamente acobertada por aquele
direito que escrevemos na Carta Maior. Uma
inversão de valores conduziu as ações de saúde para mutirões, programações
inadequadas de ações de saúde, desvalorização de profissionais médicos e
valorização de outros, inverteu papéis, burocratizou de tal forma o
mecanismo de assistência ao cidadão, que o tornou mero número em
estatísticas. Não há mais relação humana no atendimento ao cidadão,
substituída que foi por estatísticas e mais
estatísticas, um sem-número de burocratas decidindo sobre
transferências de pacientes, um sem-número de gestores não preparados,
filas e mais filas de pessoas insatisfeitas e revoltadas, um imenso
preenchimento de papéis para retirar remédios de farmácias estatais,
burocracia para internamentos, entre outros. Uma desgastante atividade
entre municípios, com trocas de verbas, troca de vagas, transporte
desnecessário de pacientes, uma máquina gigantesca em cuja ponta está
o pobre paciente, cujo tratamento não é mais
decisão de médico, profissional que se formou para isto. Criou-se uma
verdadeira viação da saúde, num sistema imenso de transporte para
assistência em outros locais que não o da origem do morador. Filas e mais
filas angustiantes para atendimento especializado em outra cidade, em
outro Estado. O paciente virou um número e perdeu a identidade. Um
verdadeiro novelo de consulta-marcação de consultas com especialistas,
retornos, feitura de exames, novo retorno, entremeados de papéis e mais
papéis e um atendimento que não anda, não resolve, não satisfaz a
esperança do paciente, não objetiva o paciente, mas objetiva a
doença. Evidentemente
que algumas mudanças trouxeram benefícios, não havendo dúvida disto.
Alguns recursos médicos, como hemodiálises, oncologia, tomografias, ações
complexas na área da cardiologia etc, estão ao alcance de todos os
cidadãos. Mas a grande mudança, para tratar o doente e não a doença, não
aconteceu ou pouco se alterou. Depois
de quase 40 anos na profissão, tendo trabalhado longo tempo no sistema
estatal de saúde e vendo cada vez mais a deterioração do estamento do médico e o elefante branco em que se
transformou a assistência à saúde, onde o médico tem mínima participação
como gestor, como executor, como agente qualificado, vê-se crescer a
desesperança, o desalento e até o abandono da profissão por outra menos
desgastante. A saída está em sair da profissão ou lutar para mudar. Não
dei conta de sair até hoje, embora o quisesse
muito. Cons.
Dr. Lauro Vaz da Costa |
Fonte:
http://jornal.crmmg.org.br/v2/index.php?edicao=2007/02&titulo=Medicina%20do%20Medo&pagina=ar04.php
Fevereiro
de 2007 – n167 03