METAMORFOSE
Os
últimos raios de sol timidamente fulgiam no horizonte. Os passarinhos,
saltitando de galho em galho, procuravam
ansiosos o repouso de seus ninhos.
Podia-se ouvir, vindos de longe, do alto
das frondosas palmeiras, o arrulho dos pardais
que em sinfonia habitual, anunciavam
alegremente que a noite estava prestes a
chegar.
Da
varanda da grande e velha casa de campo, onde passara sua infância,
contemplava em êxtase a magia do
momento.
“A vida é bela!
infinitamente bela e digna de ser vivida!
Seria
maravilhoso se pudéssemos
vivê-la intensamente em toda sua profundidade,
sem temores, receios e sem nos recuarmos
diante do amanhã
e seus insondáveis
mistérios.”
Pensava, enquanto evocava
recordações longínquas do tempo em que vivera em companhia dos pais, no
grande elo de amor que os unira e no trágico incidente que os banira
para sempre de sua vida, deixando-a na mais completa solidão.
Arremessada à própria
sorte, sem entender como nem porquê, vira-se sob proteção de pessoas com
as quais jamais tivera qualquer vínculo afetivo, que a
tratavam
com indiferença e desigualdade em relação a tudo e a todos.
Assim, crescera sempre
relegada a um segundo plano. Excluída de todos projetos e eventos familiares, tornou-se um ser
tímido, vulnerável sem iniciativa
vontade própria.
Aprendera a sorrir e sempre dizer sim na tentativa de
agradar, ira nunca o tivesse
conseguido. Como um animalzinho ferido, vivia pelos cantos
da casa
sem manifestar a sua presença.
Envolvida por estas
lembranças, mecanicamente abriu o livro que trazia mãos e que em cujas páginas, como por uma
incrível coincidência, estava escrito:
“Para viver em plenitude é preciso estar em
perfeita sintonia com a e suas
eventualidades. E seguir sempre em frente sem medos e sem receios, sobretudo
saber sorrir, sonhar, sofrer; sem temer a própria vida e suas vicissitudes. “
Envolvida por estas filosofias que tocaram profundamente o seu interior e os
encantos emanados pelo entardecer, deixou-se levar por mais um de seus
frequentes devaneios, transportando-se pelos longos caminhos da imaginação.
E aí começou a caminhar sem um determinado destino. Após muito andar,
parou para meditar, e de repente, não
sabia quem era, nem o que esperava da vida.
Olhou os prados verdejantes, a estrada que parecia não ter fim e seu olhar
se perdeu em um pequeno riacho que,
mansamente, corria em seu curso natural, deixando deslizar águas
límpidas e cristalinas.
Não saberia dizer por quanto tempo permaneceu naquele lugar, nem conseguiria traduzir o turbilhão de pensamentos que se passaram em sua mente. Só se
sabe que, quando voltou à realidade,
uma ternura imensa invadiu seu coração transbordando dentro de si uma
infinita paz...
Finalmente, encontrara o
seu eu, que há muito procurava, inutilmente.
Sentiu não ser mais a mesma pessoa e sim um ser
dotado de valores e essências, até então, adormecidas dentro de si. Percebeu naquele momento que também era
capaz de prosseguir como o curso daquele riacho.
E assim, como
aquelas águas são sinónimas de vida a
muitos seres, também ela, era um pequeno fragmento que
fazia parte da humanidade e que em qualquer momento que sua presença se
fizesse necessária, deveria estar
sempre firme para que se cumprisse o plano traçado
para sua vida, realizando assim, a missão
que lhe fora confiada.
Com a alma cheia de alegria, viu-se invadida por uma felicidade imensa,
pois havia descoberto, entre outras coisas, que nada, nem ninguém, está
aqui por acaso e que todos temos uma missão a cumprir.
Depende de nós
torná-la importante, ou uma simples incumbência rotineira, mas é sempre
nobre diante daquele que nos confiou.
Segura e confiante,
prosseguiu sua caminhada impulsionada por uma força que jamais conhecera. Iniciou-se uma nova
etapa em sua vida e com ela, a difícil e árdua tarefa da concretização do encontro consigo mesma e da
realização de seus ideais.
Sabia que os caminhos eram longos e sem desvios, mas era necessário
percorrê-los com a cabeça erguida e os
pés no chão. E assim fez...
É certo que sofrera. Não
fora uma caminhada fácil. Por várias vezes, entre conquistas e derrotas, sentiu-se desanimar,
mas impulsionada pela força da transformação, sempre encontrava a coragem
para prosseguir.
Hoje, alguns anos após
aquela milagrosa mudança, juntando retalhos de sua vida em uma pequena retrospectiva de tudo o
que viveu, sofreu e conquistou, sentiu com alegria que nada fora em vão.
Pois de tudo o que conseguiu
realizar até agora, o que mais a satisfaz é olhar o velho casarão e
vê-lo totalmente restaurado, bem estruturado e em suas dependências,
abrigando crianças, filhas do abandono ou
das adversidades da vida. Crianças que adotara e acolhera para o aconchego
do seu coração. Crianças que riem, brincam e vivem em nível de plena
igualdade com os seus filhos e que
deixam em cada canto, cada espaço da casa, uma réstia
de luz e esperança.
Respirou, profundamente, fitando o horizonte. O espetáculo era magnífico!
A paisagem era a mesma de outrora, mas, vista por um prisma diferente, emitia-lhe
mensagens de confiança e a certeza de que
a vida é realmente bela e digna de ser
vivida em toda a sua plenitude.
Então, sorriu para si mesma, sentindo-se como uma pequena larva que ao se
desprender do casulo triste e solitário de onde apenas contemplava os
encantos da vida, sem conseguir vivê-la. Transformou-se numa borboleta livre,
feliz, e conquistou o universo.
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