Literatura Alvinopolense - Terceiro Movimento

 

 

ANA BAPTISTA ALVES

 

Nasceu em Alvinópolis no dia 24 de junho de 1939.

Filha de António Basílio e Efigênia Catarina Alves.

Trabalhou na fábrica de tecidos da Companhia Fabril Mascarenhas em Alvinópolis até aposentar-se.

Na terra natal fez o curso de magistério na Escola Estadual Professor Cândido Gomes.

Sua diversão predileta é a leitura.

Tem como “hobby” escrever contos.

Chama-se Ana Baptista numa homenagem ao Santo do dia em que  nasceu,São João Batista.

 

METAMORFOSE

 

Os últimos raios de sol timidamente fulgiam no horizonte. Os passarinhos,

saltitando  de galho em galho, procuravam ansiosos o repouso de seus ninhos.

Podia-se ouvir, vindos de longe, do alto das frondosas palmeiras, o arrulho dos pardais que em sinfonia habitual, anunciavam alegremente que a noite estava prestes a chegar.

 

Da varanda da grande e velha casa de campo, onde passara sua infância, contemplava em êxtase a magia do momento.

 

 “A vida é bela! infinitamente bela e digna de ser vivida!

Seria maravilhoso se pudéssemos vivê-la intensamente em toda sua profundidade, sem temores, receios e sem nos recuarmos diante do amanhã

e seus insondáveis mistérios.”

 

 Pensava, enquanto evocava recordações longínquas do tempo em que vivera em companhia dos pais, no grande elo de amor que os unira e no trágico incidente que os banira para sempre de sua vida, deixando-a na mais completa solidão.

Arremessada à própria sorte, sem entender como nem porquê, vira-se sob proteção de pessoas com as quais jamais tivera qualquer vínculo afetivo, que a tratavam com indiferença e desigualdade em relação a tudo e a todos.

Assim, crescera sempre relegada a um segundo plano. Excluída de todos projetos e eventos familiares, tornou-se um ser tímido, vulnerável sem iniciativa vontade própria.

Aprendera a sorrir e sempre dizer sim na tentativa de agradar, ira nunca o tivesse conseguido. Como um animalzinho ferido, vivia pelos cantos da casa sem manifestar a sua presença.

Envolvida por estas lembranças, mecanicamente abriu o livro que trazia mãos e que em cujas páginas, como por uma incrível coincidência, estava escrito:

 

“Para viver em plenitude é preciso estar em perfeita sintonia com a e suas eventualidades. E seguir sempre em frente sem medos e sem receios, sobretudo saber sorrir, sonhar, sofrer; sem temer a própria vida e suas vicissitudes. “

 

Envolvida por estas filosofias que tocaram profundamente o seu interior e os encantos emanados pelo entardecer, deixou-se levar por mais um de seus frequentes devaneios, transportando-se pelos longos caminhos da imaginação. E aí começou a caminhar sem um determinado destino. Após muito andar, parou para meditar, e de repente, não sabia quem era, nem o que esperava da vida.

Olhou os prados verdejantes, a estrada que parecia não ter fim e seu olhar se perdeu em um pequeno riacho que, mansamente, corria em seu curso natural, deixando deslizar águas límpidas e cristalinas.

Não saberia dizer por quanto tempo permaneceu naquele lugar, nem conseguiria traduzir o turbilhão de pensamentos que se passaram em sua mente. Só se sabe que, quando voltou à realidade, uma ternura imensa invadiu seu coração transbordando dentro de si uma infinita paz...

 

Finalmente, encontrara o seu eu, que há muito procurava, inutilmente.

Sentiu não ser mais a mesma pessoa e sim um ser dotado de valores e essências, até então, adormecidas dentro de si. Percebeu naquele momento que também era capaz de prosseguir como o curso daquele riacho.

E assim, como aquelas águas são sinónimas de vida a muitos seres, também ela, era um pequeno fragmento que fazia parte da humanidade e que em qualquer momento que sua presença se fizesse necessária, deveria estar sempre firme para que se cumprisse o plano traçado para sua vida, realizando assim, a missão que lhe fora confiada.

 

Com a alma cheia de alegria, viu-se invadida por uma felicidade imensa, pois havia descoberto, entre outras coisas, que nada, nem ninguém, está aqui por acaso e que todos temos uma missão a cumprir.

Depende de nós torná-la importante, ou uma simples incumbência rotineira, mas é sempre nobre diante daquele que nos confiou.

Segura e confiante, prosseguiu sua caminhada impulsionada por uma força que jamais conhecera. Iniciou-se uma nova etapa em sua vida e com ela, a difícil e árdua tarefa da concretização do encontro consigo mesma e da realização de seus ideais.

Sabia que os caminhos eram longos e sem desvios, mas era necessário percorrê-los com a cabeça erguida e os pés no chão. E assim fez...

 

É certo que sofrera. Não fora uma caminhada fácil. Por várias vezes, entre conquistas e derrotas, sentiu-se desanimar, mas impulsionada pela força da transformação, sempre encontrava a coragem para prosseguir.

 

Hoje, alguns anos após aquela milagrosa mudança, juntando retalhos de sua vida em uma pequena retrospectiva de tudo o que viveu, sofreu e conquistou, sentiu com alegria que nada fora em vão.

Pois de tudo o que conseguiu realizar até agora, o que mais a satisfaz é olhar o velho casarão e vê-lo totalmente restaurado, bem estruturado e em suas dependências, abrigando crianças, filhas do abandono ou das adversidades da vida. Crianças que adotara e acolhera para o aconchego do seu coração. Crianças que riem, brincam e vivem em nível de plena igualdade com os seus filhos e que deixam em cada canto, cada espaço da casa, uma réstia de luz e esperança.

 

Respirou, profundamente, fitando o horizonte. O espetáculo era magnífico!

A paisagem era a mesma de outrora, mas, vista por um prisma diferente, emitia-lhe mensagens de confiança e a certeza de que a vida é realmente bela e digna de ser vivida em toda a sua plenitude.

 

Então, sorriu para si mesma, sentindo-se como uma pequena larva que ao se desprender do casulo triste e solitário de onde apenas contemplava os encantos da vida, sem conseguir vivê-la. Transformou-se numa borboleta livre, feliz, e conquistou o universo.

 

 

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