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                    Carlos Gonçalves

 

 

 

 

“ A ESSÊNCIA DA GUITARRA PORTUGUESA”

 

Carlos Gonçalves tem desde há muito um lugar de relevo no panorama do Fado. Surgiu em finais dos anos 50 no circuito das principais casas de Fado de Lisboa, actuando na Márcia Condessa, na Toca, na Severa, no Embuçado, no Arreda, e aí fez uma aprendizagem segura da tradição guitarrística lisboeta e acompanhou inúmeros fadistas consagrados. Em breve era chamado com frequência a substituir Fontes Rocha como segunda guitarra no conjunto de Raul Nery, indiscutivelmente a referência mais marcante do acompanhamento de Fado na década de 60. Com Fontes Rocha, precisamente, tornar-se-ia primeiro num dos dois guitarristas permanentes de Amália, e depois já, ao longo de toda fase final da carreira da artista, nos grandes palcos de todo o mundo, no seu guitarrista principal. Nessa qualidade impôs-se como um dos grandes acompanhadores da sua geração, mas revelar-se-ia igualmente como um compositor de enorme talento quando Amália decidiu consagrar os seus últimos álbuns aos seus próprios poemas e os deu, em boa parte, a musicar aos seus guitarristas mais próximos. Nasceram assim, entre tantos mais, Amor de Mel, Amor de Fel, O Fado Chora-se Bem, Gostava de Ser Quem Era, Lágrima e Grito, ou seja, alguns dos fados originais mais inspirados compostos nas últimas três décadas. Ouvir hoje Carlos Gonçalves nesta sua gravação em que junta fados clássicos e composições de sua autoria, guitarradas tradicionais e rapsódias livres é, pois, estar em presença de um Mestre com um longo percurso distinto que assim dá testemunho de uma incomparável sabedoria artística acumulada, no plano linguagem do Fado, em geral, e no do domínio técnico da guitarra portuguesa, em particular. O Fado precisa muito – e nós também – desta presença viva do seu património e desta lição das suas melhores tradições interpretativas.

  Rui Vieira Nery

 (Professor da  Universidad de Évora/Centro de Historia de Art)
(Secretario deEstado da Cultura, até  Setembro de 1997)
(Musicologista)
 

 

CARLOS GONÇALVES, mestre da interpretação da Guitarra Portuguesa e extraordinário autor, está considerado uma das principais referências da música portuguesa.  

   Em 1968, CARLOS GONÇALVES, inicia a sua colaboração com AMÁLIA RODRIGUES, integrando-se no grupo de músicos dirigido por José Fontes Rocha, a quem veio a suceder, formando então conjunto com Sebastião Pinto Varela (guitarra portuguesa), Jorge Fernando (viola) e Joel Pina (viola baixo), integrando-se mais tarde Lelo Nogueira (viola).

Seguem os anos destacados de composição musical dedicada a AMÁLIA, muitas vezes musicando a poesia escrita pela própria AMÁLIA RODRIGUES, destacando especialmente os álbuns “Lágrima” e “Gostava de ser quem era”, onde esta colaboração ficou documentada para sempre.  São 31 anos de colaboração em gravações e em espectáculos ao vivo pelas melhores salas e televisões de todo o Mundo, até ao falecimento de AMÁLIA RODRIGUES em Outubro de 1999.

  CARLOS GONÇALVES é hoje um intérprete superior, como solista, ou em acompanhamento de cantores de fado. Colaborando também com artistas internacionais em gravações de música portuguesa, mantendo e ampliando a sua obra de compositor. A técnica e a sensibilidade artística de CARLOS GONÇALVES, evidenciam-se nas guitarradas, peças específicas da Guitarra Portuguesa, especialmente no âmbito de fado.

A Guitarra Portuguesa nas mãos de CARLOS GONÇALVES vibra com alegria, ou lamenta-se de tristeza, como só ele sabe transmitir. As suas improvisações, são a demonstração da ligação que é requerida entre o intérprete e o instrumento, para expressar a emoção da alma humana, como só um mestre pode conseguir.

  CARLOS GONÇALVES, começa assim uma nova fase da sua extensa e brilhante carreira, agora em duas vertentes:

- Como concertista de Guitarra Portuguesa, em Recitais, Festivais de Guitarra, Festivais de Música Clássica, etç...

-  Como director musical e intérprete do seu grupo, dirigido para Sessões de Festivais e Concertos de Música de Raiz Tradicional.

 Biografia

Carlos Gonçalves nasceu em Beja (Alentejo) a 3 de Junho de 1938. Iniciou a sua aprendizagem na Guitarra Portuguesa aos 15 anos, estimulado pelos programas radiofónicos, especialmente os de José Nunes.

Em 1957, quando vem viver para Lisboa, realiza acompanhamentos de fadistas profissionais, sendo contratado para actuar na “Adega de Anita” (Anita Guerreiro), no Parque Mayer, e indo, mais tarde, para o restaurante típico “Lobos do Mar”.

Seguem-se actuações nas mais importantes casas de Fado em Portugal e em Espanha. Durante todos estes anos, que constituem a primeira fase da sua carreira, acompanha os fadistas mais representativos da época dourada do Fado, de onde se destacam: Alfredo Marceneiro, Maria Teresa de Noronha, Argentina santos e Fernando Farinha.

Em Maio de 1968 inicia uma longa e profícua fase de colaboração com Amália Rodrigues, integrando-se no grupo liderado por Fontes Rocha a quem, mais tarde, substitui e formando – com Pinto Varela, Jorge Fernando e Joel Pina – o grupo regular de acompanhamento da artista na década de 80. Acompanha Amália Rodrigues, tanto em gravações artísticas, como em espectáculos ao vivo nos melhores teatros, salas e televisões de todo o mundo, durante várias décadas.

Entre muitas outras gravações, gravou, de 1980 a 1983, três LPs cujos temas são exclusivamente da sua autoria, sendo os poemas de Amália Rodrigues, de onde se destacam Lágrima e Grito (este último escolhido por Amália para ser cantado no seu funeral).

Após inúmeras gravações acompanhando e dirigindo os maiores artistas das mais importantes casas discográficas, acede por fim a gravar um álbum como solista, onde podemos apreciar a sensibilidade, a criatividade e o gosto pessoal do homem, guitarrista e autor.

 

   Algumas composições de sua autoria:  

-          Ai as gentes, ai a vida                                                - Quando se gosta de alguém

-          O fado chora-se bem                                                  - Rosa de fogo

-          Alma minha                                                                - Gastei contigo as palavras

-          Amor de mel, amor de fel                                           - Variações em Mi menor

-          Asa de vento                                                              - Marcha fadista em Ré

-          Contigo fica o engano                                                  - Obsessão

-          Entrega                                                                       -      Grito 

-          Sou filha das ervas                                                     

-          Lágrima                                                                      

-          Fui ao mar buscar sardinhas

 

Guitarra Portuguesa  

A Guitarra Portuguesa reconhece-se com facilidade por quatro características muito específicas que, assim, a identificam: a sua forma peculiar, o som próprio e inconfundível de lamento, a especial técnica que se requer para a sua interpretação e os elementos decorativos que estabelecem relação com outras formas próprias do melhor artesanato português.

Estas características quase artísticas que identificam a Guitarra Portuguesa provêm da contínua conexão que tem existido desde sempre, e existe ainda, entre os construtores de guitarras e os intérpretes. Esta conexão é que tem permitido uma constante evolução que torna possível a interpretação do repertório mais complexo.

Neste sentido, foi relevante a contribuição dos grandes guitarristas e compositores de épocas anteriores, dos quais cabe recordar sobretudo: Armando Freire “Armandinho” (1891-1946); Júlio da Silva (1872-1960); Artur Parades (1899-1980); Jaime Santos (1909-1982) e José Nunes (1916-1979), verdadeiros mitos desaparecidos; e, finalmente, Carlos Paredes (1925-2004); Fontes Rocha (1926) e Carlos Gonçalves (1938).

Actualmente, entre outros, é Carlos Gonçalves quem mantém, com a sua musicalidade e o seu grande domínio da técnica da guitarra, esta herança recebida de tão grandes mestres da Guitarra Portuguesa , cuidando de manter, acima de tudo, a pureza e a autenticidade do genuíno som da Guitarra Portuguesa.

 

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