António
Pinto Basto
Canta
fado, de uma maneira diferente. Gravou dois discos e saltou para
o grupo dos
primeiros em Portugal. O primeiro trabalho foi disco de platina, o segundo de
platina. Tudo muito rápido para quem meses antes tinha entregue na editora uma
cassete com 18 temas seus. Entrou sem cunhas, orgulha-se disso. Nunca subornou
ninguém e prefere pensar que a corrupção não existe.
Iniciou este caminho aos 12 anos,
quando ouviu pela primeira vez fado ao vivo. Antes
detestava-o, depois apaixonou-se. Fez
da garagem dos pais
a sua primeira sala. Uns cartazes na parede,
um ambiente
taurino e tinha o seu retiro. Os fadistas que mais o marcaram foram
Maria Teresa de
Noronha, Vicente da
Câmara, Teresa
Tarouca, Alfredo Marceneiro, Hermínia Silva e naturalmente omnipresente Amália.
Tem uma maneira diferente de ver o fado. Acha que é esta forma musical que une
os portugueses, por isso é preciso percebê-lo.
Tem
cultura fadista. Sabe que era mais fácil fazer um disco com fados
clássicos e antigos. Não
o faz
por achar que seria como andar num círculo vicioso. Na sua opinião, a evolução
passa pela inovação.
A
crítica não lhe é indiferente. Se é boa sente uma satisfação interior, se
é má irrita-se. Pensa que os críticos têm muitas descargas de bílis, só
servem para pisar, embora por vezes possam deixar dicas para melhorar o seu
trabalho. Como fadista sente que passou a ter uma grande responsabilidade.
O público
representa um estímulo insubstituível. Quer contribuir para o fado
português, ficar na história.
Nasceu
no Alentejo, onde viveu durante dezoito anos. Estudou na escola oficial e mais
tarde ingressou no
Instituto Superior Técnico. No segundo ano de engenharia partiu para Luanda. A
aventura, o risco, a atracção pelos ambientes africanos fizeram-no ficar.
Chegou
a Portugal um
mês depois do 25 de Abril. Formou-se em engenharia embora o seu sonho fosse
arquitectura. No seu tempo os arquitectos eram professores de desenho e ele
queria mais. As suas aptidões sempre foram a arte e a técnica. Durante algum
tempo conciliou a música com a engenharia,
na altura de fazer
opções o lado artístico falou mais alto.
Confessa não ter espírito analítico ou sintético. Oscila entre entre
a aristocracia da família
e a plebe das
relações de amizade.
Os seus companheiros de infância eram miúdos da rua. Tem uma boa ideia de si
próprio, acha-se tímido e inibido, reconhecendo que por vezes não é simpático.
Tem bom humor e cultiva-o diariamente. Gosta de uma boa piada
e de um
bom jogo de palavras.
Odeia gente snobe. O termo blassé cria-lhe náuseas. Nunca se deixa levar pela
vaidade nem pela popularidade, ou mesmo com as reacções mais adolativas do público.
Reencarnação é coisa que não sabe se há-de acreditar. Talvez por
a morte da mãe
ter sido a emoção mais forte que sentiu até hoje. Mas sempre volta a falar
de música
, dos estudos
de piano
que interrompeu por não ter
um em casa
, da guitarra portuguesa. Das origens do fado, do que é ser
cantor
em Portugal. Da importância da
sorte e da oportunidade, que acha ter sido
a sua grande virtude.
Diz ter atacado na altura certa. Em 1979 esteve nos Estados Unidos a cantar
durante cinco semanas. Foi a sua entrada no profissionalismo.
É
um apaixonado da noite, gosta dos ambientes e da vida nocturna. A sua outra paixão
é a caça. Nos campos, perdizes e javali, e nos mares, polvos e peixes. Quando
tem tempos livres gosta de suar nos courts de ténis ou de squash. Um bom whisky
e um bom jogo de bridge também o atraem. Não é grande leitor e penaliza-se
por isso, prefere actividades mais activas.
Quando
fala de mulheres, defende uma teoria engraçada. «Não se pode possuir todas as
mulheres do mundo, mas deve-se pelo menos tentar». Na prática veio o
desmentido, casou-se. O que mais aprecia nelas é a sua independência e a sua
determinação. Uma mulher que saiba encher
a sala
fascina-o, embora também o atraiam quando ostentam um olhar triste. Ídolos
femininos teve aos 18 anos, Julie Crhritie. Sempre teve paixões arrebatadoras,
muitas delas platónicas. A diferença destas com o amor é como um gráfico
uniforme e aquele que mede os sismos, com bastantes picos. A ideia era conjugar
ambos, até porque funcionam em zonas diferentes do cérebro.
Ficar velho não o preocupa muito, mas quer uma velhice cheia de coisas de
interesse. Durante toda a sua vida tem coleccionado pedaços da sua existência.
Papeis, cartas, contas
de restaurante
, lembranças, tudo
com comentários de ocasião.
Talvez um dia escreva as suas memórias, para que conste
a história de um
fadista amador, engenheiro de profissão, que chegou aos primeiros lugares do
sucesso... num abrir e fechar de olhos.